Silêncio

Enviado em Correio Braziliense–coluna Opinião - Sueli Carneiro de Geledés | 27 de Agosto de 2005 @ 11:58

Por: Sueli Carneiro - 27/08/2005

O ciclo de conferências “O silêncio dos Intelectuais”, que está ocorrendo em algumas capitais do país, não poderia realizar-se em momento mais oportuno, trazendo luzes para a compreensão de contradições da atividade intelectual, em especial na esfera pública.

Intelectuais de partidos, formadores de consciência ou ideólogos oferecem a justificativa teórica e conceitual para os não ditos intelectuais, a ausência de crítica ou deslocamentos de foco sobre a natureza da crise política. A filosofia contribui no debate para nos esclarecer por meio de Marilena Chauí que o PT “caiu em uma armadilha tucana de que os petistas não se deram conta”. A conclusão é que os petistas são ingênuos, presas fáceis das armadilhas preparadas pelos outros.
A infantilização de agentes políticos opera nesse caso como absolvição para suposto desvio cometido. A filósofa vai além em sua reflexão e nos ensina acerca do sentido do silêncio dos intelectuais em conjunturas conturbadas. Segundo ela, “muitas vezes o verdadeiro engajamento exige que fiquemos em silêncio, que não cedamos às exigências cegas da sociedade.“ Há, portanto, segundo esse raciocínio, um momento de cegueira social diante da qual a clarividência intelectual deve se calar. Faltou a explicação sobre o que seriam as exigências cegas da sociedade diante da crise política, que seriam incompatíveis com o engajamento a ponto de impor o silêncio. Ademais, se a clarividência dos intelectuais não pode nos retirar da cegueira social e depende de condições especiais para poder se manifestar, para que servem os intelectuais?
O silêncio parece se apresentar como tática de preservação do compromisso. Revela que a crítica que não pode ser cabalmente realizada sem o rompimento com as cumplicidades oriundas do pertencimento a uma perspectiva política na qual se investiu parcela significativa de vida e reflexão. Para Chauí, ainda, entre as explicações para o retraimento do intelectual na esfera pública, estaria uma ordem vigente legitimada que retrai o pensamento crítico e a percepção de alternativas. No entanto, a legitimação da ordem vigente não está dissociada do fracasso das concepções alternativas que se dispuseram a confrontá-la e, sem questioná-las, torna-se impossível resgatá-las.
Aí reside a principal das aporias do intelectual engajado, notadamente à esquerda, diante dessa aflição. Longe de se recolher ao silêncio, deveria, tal como afirmou Milton Santos, a propósito do papel do intelectual, em uma de suas entrevistas, “exercer diariamente rebeldias contra conceitos assentados, tornados respeitáveis, mas falsos (…) aceitar o papel de criador e de propagador do desassossego; o produtor do escândalo, se necessário. É evidente que é preciso para esse desideratum ter boa medida entre a modéstia e a coragem. Modéstia e coragem são as condições do homem só, do eu sozinho, porque um intelectual não é um nós; o intelectual não espera o apoio do colega ou do vizinho para avançar e, freqüentemente, não avança se a cada passo tem que pedir o apoio do colega ou do vizinho.” Para que o intelectual engajado pudesse realizar tal desordem nas ordens vigentes, o seu engajamento fundamental deveria ser com a busca incessante da verdade, a crítica permanente, a revisão de paradigmas e a recusa a condescendências.
No entanto, o silêncio auto-imposto por alguns intelectuais engajados produz, como aponta Marcelo Coelho no artigo “Os intelectuais em tempos de CPI”, um paradoxo nessa inusitada conjuntura. Segundo ele, “observando o comportamento de uma camada intelectual voltada à defesa de partidos, tanto do PSDB quanto do PT, parece ter restado aos jornalistas à apuração da verdade. Com todos os erros e precipitações, procurou-se investigar ao máximo o poder, algo que os intelectuais não foram capazes de fazer.”
Ou seja, os pensadores engajados renunciaram taticamente a pensar criticamente o real, desvelar a natureza das relações que explicariam a crise política, buscar as razões que perverteram os fundamentos éticos e políticos que justificaram as práticas que hoje assombram o país, não por qualquer ineditismo que elas contenham, mas pelos agentes políticos que hoje as protagonizam. Foi longa e árdua a construção da exigência da ética na política como um valor inegociável, determinante para as escolhas eleitorais da maioria dos brasileiros antes condicionados ao “rouba mas faz”.
Nessa tarefa, denúncia, conscientização e teoria colaboraram para a estruturação de novo paradigma de exigência cidadã para o exercício da prática democrática e republicana. Um patrimônio político que está sendo dilapidado pela incapacidade dos agentes políticos de defendê-lo com radicalidade, expurgando os que os conspurcaram e pelo silencio cúmplice de intelectuais engajados. O saudoso Milton Santos, que nunca renunciou à liberdade e autonomia como condição essencial para o exercício da atividade intelectual transformadora, afirmava: “Eu tinha a certeza de que um dia os intelectuais iam ter voz no Brasil. E hoje estou orgulhoso e feliz de poder participar do debate político, sem nenhuma vinculação a partidos, ainda que não esconda as minhas simpatias”. O país está carente de sua lucidez, pois, no exercício pleno da atividade intelectual, recusou-se a, como aponta Marcelo Coelho, adotar “um silêncio estratégico, orientado pelo cálculo ou pela submissão política”. Vale para os intelectuais e para todos nós.

Pela busca do imponderável

Enviado em Correio Braziliense–coluna Opinião - Sueli Carneiro de Geledés | 16 de Agosto de 2005 @ 12:22

Por: Sueli Carneiro - 16/08/2005

Para Michel Foucault, depois do século 19 assiste-se a processo de esclerose dos grandes partidos políticos. Eles teriam deixado de se constituir espaços de criação política para reduzir-se em estratégias mais ou menos toscas de tomada ou permanência no poder. Ocorre, conforme ele, uma forma de “confisco da política”.

Diante do amesquinhamento da atividade político-partidária, restaria para a sociedade a resistência, expressando-se ela na capacidade de preservar os valores emancipatórios por ela produzidos sobretudo nas décadas de 60 e 70 do século 20 nos quais se encontravam implícita a possibilidade de recriar a existência para além dos programas partidários e sua normalização da atividade política e a conseqüente produção de sujeitos políticos viciados e subjugados aos imperativos do poder.
A perda da capacidade de criação política, os limites impostos pelas grandes agremiações partidárias à renovação das idéias e práticas no campo político fizeram com que, segundo Foucault, se deslocasse para os movimentos sociais a produção de idéias e valores que foram efetivamente capazes de transformar as nossas vidas. Movimentos sociais como os feministas, de homossexuais, dos grupos étnicos raciais, ambientalistas entre outros re-significaram grandemente os nossos estilos de vida. Com eles constituimos e redefinimos direitos e valores no plano da sexualidade, da racialidade e da etnicidade, na área ambiental, transformando a nós mesmos, as agendas partidárias e mentalidades na sociedade abrangente.
Movimentos sociais que, por força do poder de transformação sobretudo cultural tornaram-se também alvo da cooptação das grandes agremiações políticas, que, em certos casos, lançaram sobre alguns uma espécie de mortalha pela domesticação e subordinação de suas pautas aos seus interesses menores — a simples tomada e perpetuação no poder. Transformando parcelas desses movimentos sociais, de agentes de transformação em correias de transmissão de interesses de outros; em sujeitos políticos subalternos e, em alguns casos, em adversários dos que permanecem, no campo da resistência, na posição de autonomia, de independência e crítica em relação aos diferentes matizes dos descaminhos do poder.
Faz-se então necessário, especialmente neste momento para os que mantêm a liberdade de sonhar os próprios sonhos, resgatarem a iniciativa política. O que está em jogo é, como nos diz Foucault, assegurar a existência, “fora dos grandes partidos políticos (…), certa forma de inovação política”.
Para isso é hora de relembrar nossos feitos como movimentos sociais para que possamos, do interior das próprias lutas, reencontrar novas formas de reencantamento dessas lutas, resgatar as nossas agendas emancipatórias e, com elas, romper com a perplexidade e frustrações que caracterizam a conjuntura atual. Se as crises são também oportunidades, estamos diante de extraordinária oportunidade de avanço na democracia, em que a falência das corporações políticas tradicionais impõe, pelo desencanto, a reconquista da autonomia, a recusa da tutela, a ingenuidade de delegar a outros a salvaguarda de nossos sonhos. Resgatando a condição de artífices, sujeitos de projetos libertários que se situam no âmbito e, sobretudo, para além dos limites dos discursos programáticos.
Nessa perspectiva, resgatar a noção de esfera civil, de sociedade civil, revisitar os conceitos e pensadores que aportaram a esse tema torna-se imperativo. Quanto mais formos capazes de mudar, recriar as nossas práticas políticas como movimentos sociais, mais seremos capazes de transformar as práticas das agremiações institucionalizadas, já que elas expressam, em certo nível, os pequenos e grandes consentimentos, as tolerâncias da sociedade com o desvirtuamento ou traições de compromissos e promessas.
Nesse sentido, somos todos responsáveis, por ação ou omissão. Então faz-se necessário recuperar a nossa capacidade de indignação, transgressão e criação no fazer político, na busca da construção de uma sociedade civil liberta de seus compromissos históricos com as hegemonias políticas e econômicas porque, como afirma Milton Santos, “as classes chamadas superiores, incluindo as classes médias, jamais quiseram ser cidadãs; os pobres jamais puderam ser cidadãos. As classes médias foram condicionadas a apenas querer privilégios e não direitos. E isso é dado essencial do entendimento do Brasil: de como os partidos se organizam e funcionam; de como a política se dá, de como a sociedade se move.” (Santos, 2001)
Em assim sendo, está a classe média também diante da oportunidade de redenção. De abandonar o papel histórico e assumir o necessário protagonismo para o avanço democrático demarcando sua autonomia em relação às estratégias dos poderes hegemônicos de quaisquer matizes em prol da conquista da cidadania para todos. São dessas condições que depende fundamentalmente o avanço da democracia e a moralização da vida pública, pois, como afirmou Foucault, “não são essas velhas organizações políticas tradicionais e normais que permitem esse exame”.

Pela busca do imponderável

Enviado em Correio Braziliense–coluna Opinião - Sueli Carneiro de Geledés | 16 de Agosto de 2005 @ 11:56

Por: Sueli Carneiro - 16/08/2005

Para Michel Foucault, depois do século 19 assiste-se a processo de esclerose dos grandes partidos políticos. Eles teriam deixado de se constituir espaços de criação política para reduzir-se em estratégias mais ou menos toscas de tomada ou permanência no poder. Ocorre, conforme ele, uma forma de “confisco da política”.

Diante do amesquinhamento da atividade político-partidária, restaria para a sociedade a resistência, expressando-se ela na capacidade de preservar os valores emancipatórios por ela produzidos sobretudo nas décadas de 60 e 70 do século 20 nos quais se encontravam implícita a possibilidade de recriar a existência para além dos programas partidários e sua normalização da atividade política e a conseqüente produção de sujeitos políticos viciados e subjugados aos imperativos do poder.
A perda da capacidade de criação política, os limites impostos pelas grandes agremiações partidárias à renovação das idéias e práticas no campo político fizeram com que, segundo Foucault, se deslocasse para os movimentos sociais a produção de idéias e valores que foram efetivamente capazes de transformar as nossas vidas. Movimentos sociais como os feministas, de homossexuais, dos grupos étnicos raciais, ambientalistas entre outros re-significaram grandemente os nossos estilos de vida. Com eles constituimos e redefinimos direitos e valores no plano da sexualidade, da racialidade e da etnicidade, na área ambiental, transformando a nós mesmos, as agendas partidárias e mentalidades na sociedade abrangente.
Movimentos sociais que, por força do poder de transformação sobretudo cultural tornaram-se também alvo da cooptação das grandes agremiações políticas, que, em certos casos, lançaram sobre alguns uma espécie de mortalha pela domesticação e subordinação de suas pautas aos seus interesses menores — a simples tomada e perpetuação no poder. Transformando parcelas desses movimentos sociais, de agentes de transformação em correias de transmissão de interesses de outros; em sujeitos políticos subalternos e, em alguns casos, em adversários dos que permanecem, no campo da resistência, na posição de autonomia, de independência e crítica em relação aos diferentes matizes dos descaminhos do poder.
Faz-se então necessário, especialmente neste momento para os que mantêm a liberdade de sonhar os próprios sonhos, resgatarem a iniciativa política. O que está em jogo é, como nos diz Foucault, assegurar a existência, “fora dos grandes partidos políticos (…), certa forma de inovação política”.
Para isso é hora de relembrar nossos feitos como movimentos sociais para que possamos, do interior das próprias lutas, reencontrar novas formas de reencantamento dessas lutas, resgatar as nossas agendas emancipatórias e, com elas, romper com a perplexidade e frustrações que caracterizam a conjuntura atual. Se as crises são também oportunidades, estamos diante de extraordinária oportunidade de avanço na democracia, em que a falência das corporações políticas tradicionais impõe, pelo desencanto, a reconquista da autonomia, a recusa da tutela, a ingenuidade de delegar a outros a salvaguarda de nossos sonhos. Resgatando a condição de artífices, sujeitos de projetos libertários que se situam no âmbito e, sobretudo, para além dos limites dos discursos programáticos.
Nessa perspectiva, resgatar a noção de esfera civil, de sociedade civil, revisitar os conceitos e pensadores que aportaram a esse tema torna-se imperativo. Quanto mais formos capazes de mudar, recriar as nossas práticas políticas como movimentos sociais, mais seremos capazes de transformar as práticas das agremiações institucionalizadas, já que elas expressam, em certo nível, os pequenos e grandes consentimentos, as tolerâncias da sociedade com o desvirtuamento ou traições de compromissos e promessas.
Nesse sentido, somos todos responsáveis, por ação ou omissão. Então faz-se necessário recuperar a nossa capacidade de indignação, transgressão e criação no fazer político, na busca da construção de uma sociedade civil liberta de seus compromissos históricos com as hegemonias políticas e econômicas porque, como afirma Milton Santos, “as classes chamadas superiores, incluindo as classes médias, jamais quiseram ser cidadãs; os pobres jamais puderam ser cidadãos. As classes médias foram condicionadas a apenas querer privilégios e não direitos. E isso é dado essencial do entendimento do Brasil: de como os partidos se organizam e funcionam; de como a política se dá, de como a sociedade se move.” (Santos, 2001)
Em assim sendo, está a classe média também diante da oportunidade de redenção. De abandonar o papel histórico e assumir o necessário protagonismo para o avanço democrático demarcando sua autonomia em relação às estratégias dos poderes hegemônicos de quaisquer matizes em prol da conquista da cidadania para todos. São dessas condições que depende fundamentalmente o avanço da democracia e a moralização da vida pública, pois, como afirmou Foucault, “não são essas velhas organizações políticas tradicionais e normais que permitem esse exame”.

Que país é esse?

Enviado em Correio Braziliense–coluna Opinião - Sueli Carneiro de Geledés | 12 de Agosto de 2005 @ 12:21

Por: Sueli Carneiro - 12/08/2005

Os novos dados sobre pobreza divulgados pelo IPEA falam em aumento do desemprego e da violência e em queda da renda. Estimam em 53,9 milhões o número de pobres, dos quais 44% são negros e 20,5% são brancos. Isso corresponde a aproximadamente 24 milhões de negros e 11 milhões de brancos. Desse contingente de pobres, 22 milhões encontra-se em condições de indigência.

Suspeito que entre os 11 milhões de brancos pobres, encontram-se muitos como Ronaldo, o Fenômeno, que até se iniciar no futebol também era branco, segundo ele, e pobre, conforme sua história de vida.
Se o número de negros pobres é mais do que o dobro do de brancos pobres, isso significa que ser branco implica em 50% de chances a menos de ser pobre ou indigente no Brasil? Os números indicam que sim, e isso quase equivale a um seguro de vida.
Outra informação que sobressai dos dados é que a distribuição de renda no Brasil só não é pior do que a de Serra Leoa. Já fomos chamados de Belíndia, uma mistura de Bélgica com Índia, agora estamos disputando com Serra Leoa a taça de maior concentração de renda do mundo.
Ocorre que Serra Leoa, segundo dados de 1995, é um país que tem menos de 6 milhões de habitantes, 60% da população vive em situação de pobreza, tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano do mundo, e conta com uma expectativa de vida de 35 anos para homens e 38 para mulheres. Porém, é um país que ainda enfrenta o trauma e a devastação de uma guerra civil que durou uma década e que terminou somente em 2002. Encontra-se agora empenhado num processo de reconciliação nacional acompanhado pelas Nações Unidas.
A República brasileira, ao contrário, tem mais de 170 milhões de habitantes, uma economia gigantesca quando comparada à daquele país, um território continental, riquezas naturais abundantes, apesar dos desperdícios. É uma nação que já nasceu “reconciliada”, na qual, segundo a lenda, todos são iguais, sem distinção de qualquer natureza, e diferentes povos, religiões, etnias vivem em harmonia, e que desconhece, em sua história, uma guerra civil “oficial”. Ainda assim, consegue ser o país mais próximo em desigualdade de renda desse pequeno país africano com pouco mais de 70.000km², menor que o estado de Santa Catarina. Nem dispõe dos diamantes em profusão que em Serra Leoa são o motivo da cobiça de grupos nacionais, internacionais, guerrilheiros e contrabandistas, grandemente responsáveis pelos conflitos e dificuldades pelas quais passa o país.
Sempre me ocorre a pergunta: se a maioria das pessoas que estão na linha ou abaixo da linha da pobreza no Brasil, fossem brancas, descendentes dos imigrantes europeus, seria possível a permanência, tolerância ou indiferença com os índices de indigência humana a que se encontram submetidas às populações negras e indígenas? Muitos fatos fazem supor que não. Basta lembrar a repercussão e indignação pública que ocorrem quando pessoas brancas de classes médias são vítimas de violência, em relação ao anonimato e indiferença com que, em geral, são tratadas as vítimas cotidianas e anônimas de extermínio, também em geral negras. Desconfio que se tal fosse o caso, outras seriam as políticas públicas desde o início da República, outro seria o problema agrário, se é que houvesse, posto que possivelmente a reforma agrária teria sido realizada, como ocorreu na maioria dos países desenvolvidos, majoritariamente brancos, e outras seriam as opções em termos de desenvolvimento, que dificilmente seria tão concentrador e excludente.
Recorrentemente, diante da divulgação de novos números que indicam as mazelas sociais expressas pelos nossos indicadores sociais, me lembro da frase atribuída a Nelson Rodrigues, segundo a qual “subdesenvolvimento não se improvisa”. Então, ele é intencionalmente produzido. Dentre os múltiplos elementos que concorrem para ele estão, segundo o pesquisador Ricardo Paes de Barros (em seminário promovido pela Care Brasil, em dezembro de 2001), “critérios históricos” por meio dos quais são divididos os recursos federais para a assistência social, fazendo com que “o dinheiro do passado seja dividido como sempre se dividiu” e, “só se vier mais dinheiro é que se pensa nos pobres”. Na análise desses critérios e práticas, usando como exemplo a repartição dos recursos federais voltados para o atendimento de creches entre os estados da Federação, diz Paes de Barros, observou-se que “a última criança atendida em Santa Catarina tinha renda per capita de 50 reais. Em Pernambuco, a renda da criança era de cinco reais. Quem está abaixo da média são Sergipe, Piauí, Ceará, Bahia, Alagoas, Maranhão e Pernambuco. O que é isso? Isso é o Nordeste. Então, o Nordeste é aquele que menos recebe dinheiro”.
Provavelmente, fôssemos um país de inconteste maioria branca, seríamos uma nação com menor concentração de renda, porque não haveria a necessidade de excluir a metade da população da qual a sociedade brasileira sempre tentou se livrar com a ajuda do Estado, por ação ou omissão.
*Sueli Carneiro é pesquisadora do Cnpq e Diretora do Geledés - Instituto da Mulher Negra

Que país é esse?

Enviado em Correio Braziliense–coluna Opinião - Sueli Carneiro de Geledés | 12 de Agosto de 2005 @ 11:57

Por: Sueli Carneiro - 12/08/2005

Os novos dados sobre pobreza divulgados pelo IPEA falam em aumento do desemprego e da violência e em queda da renda. Estimam em 53,9 milhões o número de pobres, dos quais 44% são negros e 20,5% são brancos. Isso corresponde a aproximadamente 24 milhões de negros e 11 milhões de brancos. Desse contingente de pobres, 22 milhões encontra-se em condições de indigência.

Suspeito que entre os 11 milhões de brancos pobres, encontram-se muitos como Ronaldo, o Fenômeno, que até se iniciar no futebol também era branco, segundo ele, e pobre, conforme sua história de vida.
Se o número de negros pobres é mais do que o dobro do de brancos pobres, isso significa que ser branco implica em 50% de chances a menos de ser pobre ou indigente no Brasil? Os números indicam que sim, e isso quase equivale a um seguro de vida.
Outra informação que sobressai dos dados é que a distribuição de renda no Brasil só não é pior do que a de Serra Leoa. Já fomos chamados de Belíndia, uma mistura de Bélgica com Índia, agora estamos disputando com Serra Leoa a taça de maior concentração de renda do mundo.
Ocorre que Serra Leoa, segundo dados de 1995, é um país que tem menos de 6 milhões de habitantes, 60% da população vive em situação de pobreza, tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano do mundo, e conta com uma expectativa de vida de 35 anos para homens e 38 para mulheres. Porém, é um país que ainda enfrenta o trauma e a devastação de uma guerra civil que durou uma década e que terminou somente em 2002. Encontra-se agora empenhado num processo de reconciliação nacional acompanhado pelas Nações Unidas.
A República brasileira, ao contrário, tem mais de 170 milhões de habitantes, uma economia gigantesca quando comparada à daquele país, um território continental, riquezas naturais abundantes, apesar dos desperdícios. É uma nação que já nasceu “reconciliada”, na qual, segundo a lenda, todos são iguais, sem distinção de qualquer natureza, e diferentes povos, religiões, etnias vivem em harmonia, e que desconhece, em sua história, uma guerra civil “oficial”. Ainda assim, consegue ser o país mais próximo em desigualdade de renda desse pequeno país africano com pouco mais de 70.000km², menor que o estado de Santa Catarina. Nem dispõe dos diamantes em profusão que em Serra Leoa são o motivo da cobiça de grupos nacionais, internacionais, guerrilheiros e contrabandistas, grandemente responsáveis pelos conflitos e dificuldades pelas quais passa o país.
Sempre me ocorre a pergunta: se a maioria das pessoas que estão na linha ou abaixo da linha da pobreza no Brasil, fossem brancas, descendentes dos imigrantes europeus, seria possível a permanência, tolerância ou indiferença com os índices de indigência humana a que se encontram submetidas às populações negras e indígenas? Muitos fatos fazem supor que não. Basta lembrar a repercussão e indignação pública que ocorrem quando pessoas brancas de classes médias são vítimas de violência, em relação ao anonimato e indiferença com que, em geral, são tratadas as vítimas cotidianas e anônimas de extermínio, também em geral negras. Desconfio que se tal fosse o caso, outras seriam as políticas públicas desde o início da República, outro seria o problema agrário, se é que houvesse, posto que possivelmente a reforma agrária teria sido realizada, como ocorreu na maioria dos países desenvolvidos, majoritariamente brancos, e outras seriam as opções em termos de desenvolvimento, que dificilmente seria tão concentrador e excludente.
Recorrentemente, diante da divulgação de novos números que indicam as mazelas sociais expressas pelos nossos indicadores sociais, me lembro da frase atribuída a Nelson Rodrigues, segundo a qual “subdesenvolvimento não se improvisa”. Então, ele é intencionalmente produzido. Dentre os múltiplos elementos que concorrem para ele estão, segundo o pesquisador Ricardo Paes de Barros (em seminário promovido pela Care Brasil, em dezembro de 2001), “critérios históricos” por meio dos quais são divididos os recursos federais para a assistência social, fazendo com que “o dinheiro do passado seja dividido como sempre se dividiu” e, “só se vier mais dinheiro é que se pensa nos pobres”. Na análise desses critérios e práticas, usando como exemplo a repartição dos recursos federais voltados para o atendimento de creches entre os estados da Federação, diz Paes de Barros, observou-se que “a última criança atendida em Santa Catarina tinha renda per capita de 50 reais. Em Pernambuco, a renda da criança era de cinco reais. Quem está abaixo da média são Sergipe, Piauí, Ceará, Bahia, Alagoas, Maranhão e Pernambuco. O que é isso? Isso é o Nordeste. Então, o Nordeste é aquele que menos recebe dinheiro”.
Provavelmente, fôssemos um país de inconteste maioria branca, seríamos uma nação com menor concentração de renda, porque não haveria a necessidade de excluir a metade da população da qual a sociedade brasileira sempre tentou se livrar com a ajuda do Estado, por ação ou omissão.

*Sueli Carneiro é pesquisadora do Cnpq e Diretora do Geledés - Instituto da Mulher Negra