Respeito

Enviado em Correio Braziliense–coluna Opinião - Sueli Carneiro de Geledés | 12 de Novembro de 2005 @ 12:04

Por: Sueli Carneiro - 12/11/2005

“A cor da pele já impede de achar trabalho, a roupa que você usa, o nome”, relata um branco de origem argelina, o casaco salpicado de tinta. “Não tenho trabalho, respeito, não tenho nada.”

Os jovens revoltados na França prometem continuar “queimando tudo até serem respeitados”. Descartam motivações religiosas para os seus atos. O tripé em que eles se apóiam são: pobreza, discriminação racial e ausência de projeto para a vida. As manifestações que se espalharam pela França ecoam em outros países europeus, demonstrando potencialidade para se alastrarem, como um rastilho de pólvora no continente europeu e outros. A descrença no diálogo, no cumprimento das promessas pelos políticos fazem emergir as novas modalidades de enfrentamento. Um deles afirma: “Vou continuar queimando tudo. Tudo o que for do Estado, do governo ou de empresas vai ser queimado”. Outro confirma: “Se algum dia nos organizarmos, teremos granadas, explosivos e kalashnikovs”. Outro expõe o grau do dilaceramento que os consomem, considerando que as explosões são a única maneira que eles têm de se fazer ouvir.
A pretensão de ferir o poder com as queimadas esbarra no alcance real das ações. Elas terminam por atingir bens e pessoas das próprias comunidades excluídas. Eles explicam o paradoxo: “Não temos escolha. Estamos dispostos a sacrificar tudo, já que não temos nada”. O que se pode esperar do futuro do mundo quando, em toda parte, se encontram jovens e adolescentes que sentem que não têm mais nada a perder.
Entre as respostas do poder público francês à revolta destaca-se a do ministro do Interior do governo, para quem esses jovens constituem “escória” que ele se encarregará de “limpar”. Recebe como réplica dos revoltados a seguinte formulação: “Já que somos a escória, vamos dar a esse racista o que limpar com seu aspirador”.
No Brasil, grande parte dos jovens e adolescentes submetidos ao mesmo tripé da exclusão não teve tempo de “queimar tudo”. Rapidamente foram recrutados e alocados. Por meio de uma eficiente tecnologia higienista, foi-lhes dada uma função heróica e um futuro escrito nas estrelas e nas estatísticas de homicídio: são soldados do tráfico, cabras marcados para morrer. Torram-se a si mesmos ou são queimados pela ação policial. Os que escapam dessa carreira se consideram sobreviventes até a próxima revista policial, até o próximo encontro com os mesmos, os manos que estão do lado de lá, até …. quem sabe. Culpados ou inocentes, o destino ou o tratamento em geral os classifica de escória, tanto para os órgãos de controle e repressão quanto para parcelas da sociedade brasileira.
Uma palavra comum aproxima os jovens de lá dos jovens de cá: a necessidade e o desejo de receberem respeito. Os de lá dizem que o conquistarão queimando tudo, os de cá dizem que sua garantia de respeito está no portar uma arma.
Em entrevista ao jornal Agora, o rapper Mano Brown, do Racionais MCs, falando sobre o desarmamento, expôs toda a desesperança que o referendo encerrava. É a frustração de quem, como ele, buscava sensibilizar as potenciais vítimas das armas de fogo a renunciarem ao seu uso. As respostas às suas pregações contrárias ao uso de armas mostraram os limites que uma realidade social cruel interpõe para os que buscam a paz social. Limites que o referendo esteve longe de atravessar. Para Brown, “o jovem da periferia vê na arma um instrumento para ascender na sociedade de alguma forma, de ganhar respeito, coisa que ele não conseguiria, ou não da forma que ele queria”.
A imagem usada por Mano Brown sobre o momento em que os jovens entram na vida social relembra a de gladiadores que são jogados na arena para travar uma batalha da qual sobreviverá o mais forte, mas somente e apenas até o próximo combate. Uma arena onde eles não vislumbram ao redor piedade ou compaixão. Onde a violência está inscrita como modo de construção da identidade, posto que dela depende a possibilidade de realização de expectativas que compõem, em especial, o imaginário que envolve a masculinidade, ainda que ao preço do encurtamento da esperança de vida.

Lutando contra esse atavismo, parcelas da juventude negra insistem no diálogo e na ação política organizada e pacífica junto ao poder público para reclamar o direito à vida. É esse o sentido da campanha de mobilização contra a violência racial sofrida pela população negra, que tem como lema “Reaja ou será Morta, Reaja ou será Morto”, cujo lançamento se deu em frente à Secretaria de Segurança Pública da Bahia com a “Vigília pela Vida”. Segundo apontam seus coordenadores, a média de jovens mortos nos bairros de Salvador é de sete a cada fim de semana. Documento foi entregue ao relator especial da ONU Doudou Diêne, denunciando a escalada de mortes que atingem os jovens negros, na sua maioria vítimas de grupos de extermínio nos bairros da periferia.
Seria bom que os nossos jovens fossem ouvidos e respeitados antes que, como afirma um dos jovens franceses em revolta, o seu pedido de socorro possa vir a adquirir o som de coquetéis molotov.

Em Legítima Defesa

Enviado em Correio Braziliense–coluna Opinião - Sueli Carneiro de Geledés | 1 de Novembro de 2005 @ 12:03

Por: Sueli Carneiro - 01/11/2005

Marcharemos em 16 de novembro próximo sobre Brasília em ato de indignação e protesto convocado pelo Movimento Negro Brasileiro. Por que o faremos?

Muitas são as razões que advêm de uma realidade inaceitável contra a qual a militância negra vem historicamente lutando e frente à qual as respostas do Estado permanecem insuficientes, exigindo permanente esforço de compreensão.
Assim, contrato racial, biopoder e epistemicídio, por exemplo, são conceitos que se prestam como contribuição ao entendimento da perversidade do racismo.São marcos conceituais que balizaram a tese de doutorado que defendemos junto à USP em agosto passado sob o título “A construção do outro” como não-ser como fundamento do ser. Nela procuramos demonstrar a existência no Brasil de um contrato racial que sela um acordo de exclusão e/ou subalternização dos negros, no qual o epistemicídio cumpre função estratégica em conexão com a tecnologia do biopoder.
É o filósofo afro-americano Charles Mills quem propõe no livro The Racial Contract (1997), que devemos tomar a inquestionável supremacia branca ocidental no mundo como um sistema político não-nomeado, porque ela estrutura “uma sociedade organizada racialmente, um Estado racial e um sistema jurídico racial, onde o status de brancos e não brancos é claramente demarcado, quer pela lei, quer pelo costume”. Um tipo de sociedade em que o caráter estrutural do racismo impede a realização dos fundamentos da democracia, quais sejam a liberdade, a igualdade e a fraternidade,posto que semelhante sociedade consagra hegemonias e subalternizações racialmente recortadas.
A branquitude, enquanto sistema de poder fundado no contrato racial, da qual todos os brancos são beneficiários, embora nem todos sejam signatários, pode ser descrita no Brasil por formulações complexas ou pelas evidências empíricas como no fato de que há absoluta prevalência da brancura em todas as instâncias de poder da sociedade: nos meios de comunicação, nas diretorias, gerências e chefias das empresas, nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, nas hierarquias eclesiásticas, no corpo docente das universidades públicas ou privadas etc.
Por seu lado, Michel Foucault entende ser o racismo, contemporaneamente, uma dimensão do poder soberano sobre a vida e a morte. Operacionaliza-se, segundo Foucault, por meio do biopoder, conceito que descreve uma tecnologia de poder, uma biopolítica que permite a eliminação dos segmentos indesejáveis. Foucault sintetiza essa operação na expressão “deixar viver ou deixar morrer.”
Assim, para ele, “(…) o racismo é indispensável como condição para poder tirar a vida de alguém, para poder tirar a vida dos outros, a função assassina do Estado só pode ser assegurada desde que o Estado funcione, no modo do biopoder, pelo racismo” (Foucault, 2002, p. 306). A análise dos dados relativos à mortalidade, morbidade e expectativa de vida sustentam a visão de que a negritude se acha inscrita no signo da morte no Brasil, sendo sua melhor ilustração o déficit censitário de jovens negros, já identificados estatisticamente em função da violência que os expõe prioritariamente ao “deixar morrer”, além dos demais negros e negras, cujas vidas são cerceadas por mortes, preveníveis e evitáveis, que ocorrem pela omissão do Estado.
Alia-se nesse processo de banimento social a exclusão das oportunidades educacionais, o principal ativo para a mobilidade social no país. Nessa dinâmica, o aparelho educacional tem se constituído, de forma quase absoluta, para os racialmente inferiorizados, como fonte de múltiplos processos de aniquilamento da capacidade cognitiva e da confiança intelectual. É fenômeno que ocorre pelo rebaixamento da auto-estima que o racismo e a discriminação provocam no cotidiano escolar; pela negação aos negros da condição de sujeitos de conhecimento, por meio da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano e da diáspora africana ao patrimônio cultural da humanidade; pela imposição do embranquecimento cultural e pela produção do fracasso e evasão escolar. A esses processos denominamos epistemicídio (Carneiro, 2005).
Assim a marcha de 16 de novembro será realizada contra a persistência dessa lógica que informa o Estado brasileiro que, quando não mata, mantém a maioria de nossa população em condições de indigência material e cultural, refém do paternalismo e do assistencialismo. Marcharemos contra o racismo, pela cidadania, pela vida e por reparações. Em legítima defesa. E convocamos a todas e todos que não são signatários desse contrato racial perverso a marcharem conosco, em honra à memória de Zumbi dos Palmares e pela conquista da plena cidadania para todos.