Racistas? Não
O vice-presidente José Alencar afirmou em comentário à frase da ministra Matilde Ribeiro que “o racismo realmente não existe” no país. Como não somos racistas, devemos entender que o incêndio criminoso praticado em moradias de estudantes africanos na UnB “não se coaduna com o espírito aberto, tolerante e acolhedor do povo brasileiro”, conforme recomenda nota do Ministério das Relações Exteriores sobre o caso.
Portanto, além de não sermos racistas, somos também cordiais e acolhedores e é, em conformidade com esse “espírito”, que, como informa o site Globo.com de 23/3/07, a prefeitura de Apucarana, no Paraná, “adotou uma solução radical para acabar com os moradores de rua: recolheu os mendigos e mandou-os embora do município. A administração municipal diz que a medida é uma resposta à reclamação de cidadãos incomodados: “A gente está tomando essa medida mais enérgica para poder acabar com isso”, justificou a assistente social Edilaine Lima. A foto que acompanha a matéria mostra cinco pessoas negras diante da autoridade policial. Os que retornarem às ruas serão processado por vadiagem.
Aliás, a origem da lei da vadiagem não poderia ser mais emblemática acerca do nosso não-racismo. No artigo “Processo e preconceito social”, Miguel Lucena Filho aponta que “a mendicância e a vadiagem transformaram-se em objeto da repressão estatal na medida em que o escravagismo ia entrando em declínio, com as ruas cheias de libertos sem ocupação. O Estado reprimia a resistência de livres e libertos em voltar à condição análoga à de escravos. Reprimia-os, prendia-os e, por fim, forçava-os ao trabalho gratuito, agora na condição de condenados. O apelo à repressão da vadiagem, após a assinatura da Lei Áurea, expressava o medo das autoridades ante a liberdade e o abandono das grandes propriedades por ex-escravos.”
Como não somos racistas, em 16/1/07, como informa a lista racial, no Piauí, Robson Luiz Moreira, cantor de hip hop, funcionário do Projeto Casa Brasil, esperava o ônibus quando foi abordado por um policial militar fardado que, sem explicar nada, arrastou Robson até a parede mais próxima, bateu fortemente no jovem e apontou arma de fogo para sua cabeça. Assustado e sem entender por que apanhava, recebia respostas agressivas do policial: “Você não tem que me dar explicações, vai explicar na cadeia”. O cantor só entendeu o porquê de estar apanhando quando um popular que estava na parada de ônibus perguntou ao policial: “O que esse neguinho marginal fez?” O policial respondeu, depois de dar mais um tapa na cara de Robson: “Ele roubou dois celulares”. Algemado, o cantor foi jogado dentro do camburão e levado ao distrito policial. Na delegacia, outros policiais que o receberam não lhe deram o direito legal de fazer uma ligação, ficando detido por horas em uma cela.
Como não somos racistas, em São Paulo, em 2/4/07, dois afro-americanos estudantes de direito da Universidade da Califórnia — UCLA seguiam em um táxi quando o veículo foi emparelhado por um carro de polícia, com quatro policiais, que colocaram as armas para fora da viatura, apontadas para o taxi, chegando quase a tocá-los. O carro da polícia seguiu emparelhado com o táxi por cerca de quatro quadras. Sem dizer uma palavra, os policiais miravam os estudantes e moviam a arma em direção a eles, o que gerou congestionamento e a humilhante curiosidade que essas situações provocam.
Entre as lições apreendidas por esses pesquisadores, como subsídio para o estudo comparativo que estão realizando sobre a questão racial no Brasil e nos EUA, a melhor está na frase do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo, José Gregori, que, a propósito de lamentar a prisão do rabino Henry Sobel nos EUA disse: O que me deixa aterrado é a polícia americana ter chegado a esse grau de boçalidade. Você, como delegado, tem de saber quem prende. Esses afro-americanos receberam uma aula prática sobre o que isso pode significar no Brasil.
Como não somos racistas, o repentista e compositor negro maranhense Geremias Pereira da Silva, o Gerô, que teria sido “confundido” com um assaltante, foi torturado e executado após ter sido preso por dois integrantes da Polícia Militar do Maranhão, em 22/3/07. O Instituto Médico Legal constatou: duas costelas de cada lado fraturadas e hemorragia de um dos rins. Ao ser preso, portava seu primeiro CD, Gerô, uma voz diferente, que seria lançado em abril. Contra a maré dominante, o governador Jackson Lago, que esteve no velório do artista, afirmou que não vai tolerar a impunidade: “Antes, crimes iguais a este eram abafados; agora é diferente”. O espaço desta coluna é insuficiente para todos os casos a relatar.
Então, conclui-se que o único racismo que inequivocamente parece existir no Brasil é o “racismo às avessas” do qual está sendo acusada a ministra Matilde Ribeiro pela maioria dos formadores de opinião do país, por frase intencionalmente descontextualizada. Nela, encontraram o mote que há muito buscavam para desencadear a ofensiva conservadora, que ora assistimos, contra as políticas de ações afirmativas. Entre elas as cotas — o verdadeiro alvo escondido por trás da polêmica criada em torno da frase da ministra.
Sueli Carneiro
Doutora em Filosofia da Educação pela USP, é diretora do Geledés (Instituto da Mulher Negra)
on 26 de Abril de 2007 @ 17:15
Pretendia enviar essa questão para o Instituto mas não consegui abrir o endereço eletrônico. Alguns amigos da França e da Bélgica acharam que fui radical nessa colocação mas não sinto assim. SEgue abaixo o que penso sobre a insistência em “apagar” a presença do Negra, homem e mulher, de determinados tipos de anúncio.
Um abraço
Le Cuisinier.
Infelismente não consegui colocar a imagem do anuncio feito pelo senac/rio. Está disponível no blog: banquetdemots.blogspot.com
Não é Um Descuido Aleatório, É?!
Pode parecer algo óbvio ou “natural” para uma parcela significativa dos brasileiros e daqueles que escolheram esse país para viver e trabalhar mas como, para mim, isso não é patente eu pergunto? Por que o anúncio que divulga a referida palestra sobre sucessão familiar em empresas não trás a imagem de um negro ou uma negra? Não há empresários ou empresárias afrodescendentes ou mesmo africanos nesse país? Se vocês - SENAC - são, ao que parece, um centro de formação, não deveriam ter isso também em mente? A foto que ilustra a propaganda poderia ter sido retirada, sem retoques, de qualquer revista Européia não? Qualquer criança negra que vir esse anúncio introjeta algo como: “isso não é para mim agora que sou criança nem para mim quando for adulto.” Não preciso comentar então o efeito nos nossos jovens. Evidente que não é só essa imagem que provocará isso mas ela se junta a uma insistente e “burra” forma de pensar a publicidade que ainda encontra respaldo dentro dos “laboratórios” de propaganda e marketing nesse país; “tradutores” dos anseios que ainda nutrem as “elites” (sic) brasileiras do ideal de sermos um dia, uma “Suécia tropical” ou uma Buenos Aires melhorada ou, o que seria realmente ruim: uma Miami encravada bem ao sul do equador. Têm alguma dúvida sobre a existência de um empresariado negro, capaz e eficaz comandando empresas familiares prósperas, muitas delas com faturamento de milhões de dólares? Façam uma pesquisa nas revistas nacionais especializadas em economia, comércio e hotelaria. Vão encontrar coisas bastante interessantes; entre elas que esse país é maravilhosamente construído pelas mãos de negros, árabes, judeus, franceses, alemães, ucranianos, russos, belgas, holandeses, estado unidenses, espanhóis, portugueses, africanos, japoneses, chineses, ingleses, latinos de todos os recantos, canadenses, italianos… Somos uma nação de muitas cores, muitas culturas e línguas mas é preciso dar um BASTA a insistência de excluir, suavemente, desse bolo fantástico, a população negra, sobretudo a mais pobre. Não podemos mais fingir um desconhecimento de que o chão do Brasil foi regado com o sangue e o suor dessa gente combativa e competente, sequestrada em suas casas em África e traficada para cá aos milhões e escravizadas por longos e vergonhosos 400 anos. BASTA!
Le Cuisinier. quinttal@yahoo.com.br
Propaganga do SENC Rio para empresários cariocas / e-mail: empresarial@rj.senac.br
posted by Le Cuisinier. @ 7:39 PM