Velhas teses, novas estratégias
“… Toda ideologia que se preza é criada, mantida e aperfeiçoada como arma política e não como doutrina teórica. É verdade que, às vezes, como ocorreu no caso do racismo, uma ideologia muda o seu rumo político inicial, mas não se pode imaginar nenhuma delas sem contato imediato com a vida política. Seu aspecto científico é secundário. Resulta da necessidade de proporcionar argumentos aparentemente coesos, e assume características reais, porque seu poder persuasório fascina também a cientistas, desinteressados pela pesquisa propriamente dita e atraídos pelas possibilidade de pregar à multidão as novas interpretações da vida e do mundo. “ (Hannah Arendt, 1989: p.189)
Como o Brasil é uma persistente promessa postergada de futuro, preferimos ir de volta ao passado, pois as “novas interpretações da vida e do mundo” são o retorno a velhas teses que forjaram os mitos que somos, outra vez, convidados a cultuar em detrimento da realidade social.
A novidade do momento é que raça não existe! A constatação óbvia é repetida em certos veículos de comunicação como se a genética brasileira tivesse realizado um feito semelhante ao da descoberto da pólvora. Quando foi que raça existiu a não ser como instrumento de exploração e exploração dos povos não-brancos que teve no racismo científico sua legitimação como doutrina teórica? Seria bizarro não fossem as repercussões desse falso debate. Com a ajuda da ciência derretem-se as negritudes biológicas para decretar, não a morte da raça sociológica e sim das políticas de eliminação das desigualdades sociais fundadas na rejeição à raça ou cor dos indivíduos. É o resultado político que parecer ser buscado com a investigação da ascendência genética dos negros. Veja-se o caso dos gêmeos Alex e Alan, submetidos a perversa, e constrangedora exposição, sendo usados por meio da generalização de seu caso particular e peculiar para atacar a política exitosa da UnB de inclusão da diversidade racial.
Quando combatemos o conceito de raça de costas para a história de desigualdade que ela produziu e permanece reproduzindo estamos no mesmo paradigma imposto pelo racismo, na medida em que a negação da realidade social das raças hoje coopera para a permanência das desigualdades que ela engendra como construto social e cultural.
É por isso que fora dos laboratórios dos cientistas, a vida segue como ela é: segundo a lista discriminaçãoracial uma mulher negra aprovada em primeiro lugar para trabalhar como atendente comercial no último concurso dos Correios na região do ABC paulista recebe da gerente da agência em que fazia treinamento alguns conselhos. Disse ela que os Correios pedem que os funcionários do atendimento apresentem boa aparência para “transmitir segurança aos clientes” quando vão postar suas cartas e encomendas. O foco em questão era o cabelo de Mara, com dreads chegando a gerente a propor fossem cortados; que se Mara fosse carteira ou operadora de triagem, não teria problemas com a aparência. E ainda fez uma série de perguntas do tipo “por que você usa o cabelo assim?”, “como lava?”, afirmando em seguida: “eu também tenho um pé na senzala”.
Se fosse uma negra famosa Mara teria sido convidada a submeter-se a um teste de DNA que provavelmente comprovaria que ela tem em torno de 40,8% de ascendência européia assim como Daiane dos Santos. O problema está em conseguir convencer o empregador dessa branquitude presente e latente em seu DNA que não foi capaz de escorrer seus cabelos.
Talvez uma contribuição concreta que geneticista poderiam dar nesses casos, seria o seus institutos ofertarem um certificado de ascendência européia a todos os que “parecem negros” mas segundo a genética não são. Poderia ser uma espécie de crachá no qual viria descritas as porções, sobretudo européia de cada um de nós, a ser apresentado junto com os demais documentos exigidos nos processos de seleção das empresas ou nas” revistas” policias e demais situações sociais em que, “por engano”, sejamos “tratados como negros”. Isso talvez, teria evitado, por exemplo, a humilhação sofrida por Daiane dos Santos com a piada divulgada por certa atriz na qual ela era chamada de macaca, ou as vezes em que o cantor Djavan foi parado pela polícia em São Paulo com seus 30,1% de europeidade em seu DNA.
O conhecido geógrafo, aguerrido combatente contra as cotas raciais e do Estatuto da Igualdade Racial, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo diz: “É importante que o Brasil mostre para o mundo que é um país de miscigenação - um país que não é uma democracia racial, mas quer ser.” O Fashion Rio acaba de dar ao mundo um exemplo dessa democracia racial “que se quer”: O inglês Michael Roberts que estava fotografando o Fashion Rio para a revista “Vanity Fair” disse que “é uma vergonha eu não encontrar negras desfilando. Estou surpreso (…) “Negros são fantásticos, assim como índios e orientais. O Brasil deveria aproveitar sua diversidade.” A resposta de Felipe Velloso, responsável pela escolha de modelos é que ele “adoraria ter negras na passarela, mas há poucas na profissão. Veja a TV: você não vê negros em comerciais de pasta de dente.” (coluna de Mônica Bergamo, Folha de São Paulo de 06/06/2007). Como se vê, como raça não existe, os negros desapareceram da paisagem (ou melhor das passarelas) e de roldão, foram consigo orientais e índios. Deu branco!