Obama para todos os gostos
A onda de mudanças políticas que parecia fenômeno latino-americano atinge as eleições presidenciais dos EUA. Em cada lugar ela se manifesta de diferentes maneiras guardando respeito às características culturais e políticas de cada país ou região, mas elas têm em comum os ventos de mudança. Nada mais emblemático do que a polarização das candidaturas do senador negro Barack Obama e a senadora Hillary Clinton pela indicação do Partido Democrata para a sucessão do presidente George Bush na Casa Branca.
Gênero e raça são temas importantes na sociedade norte-americana porque representam um desafio para a realização da igualdade. E a possibilidade de um homem negro ou uma mulher branca se tornarem presidente dos EUA renovam a confiança na vitalidade da democracia americana, na sua capacidade de se renovar e se reinventar. Os que simbolizam grupos historicamente excluídos ou discriminados são chamados a ofertar originalidade, renovação, mudança e esperança na (des)ordem do mundo.
Além do interesse que desperta, a simbologia que cada candidato carrega presta-se a variadas apropriações, em diferentes contextos, que extrapolam os limites geográficos e os interesses em jogo naquele país. A candidatura de Obama, com alto grau de adesão da população branca norte-americana, é vista por analistas como sintoma do progresso nas relações raciais nos EUA que nessa leitura significaria ter ele se tornado opção eleitoral efetiva para grandes parcelas dos norte-americanos a despeito de sua cor para uns, ou, para outros, da suposta “neutralidade racial”.
No Brasil, em razão dessas supostas características, Obama tornou-se a nova arma dos formadores de opinião que combatem as políticas de igualdade racial, em especial as cotas nas universidades brasileiras. Em chamadas de matérias da imprensa nacional sobre as prévias nos EUA, lê-se, que “Obama tornou cor irrelevante na campanha”. Outras reiteram como aspecto mais interessante de sua candidatura o que analistas consideram ser a sua “laicidade” ou “desenraizamento ” racial. Há os que atribuem as características ao pertencimento birracial. Outros artigos destacam trechos de seu livro A audácia da esperança, em que ele discorre sobre a necessidade de ajustes nas políticas raciais norte-americanas.
Curiosamente, a inferida neutralidade racial atribuída a Obama e tão enfatizada por certos analistas nacionais, tanto quanto o fato dele ser filho de mãe branca e pai negro e ter parentes de diferentes tonalidades, não são capazes de fazer que ele seja percebido dentro e fora dos EUA como apenas um candidato à Presidência dos EUA. Ele é sempre referido como candidato negro e só seria viável por não se fazer perceber como tal.
Tem-se, nesse caso, uma perversão daquela sentença que diz que à mulher de César não lhe basta ser honesta. Ela deve também parecer honesta. No caso dos negros essa idéia adquire bizarra formulação: pode-se até ser negro, mas não se deve parecer negro.
Em outra dimensão, as abordagens sobre a candidatura de Obama expõem também as contradições em que são enredadas as candidaturas negras lá e cá. De um lado, ser um negro que faz da política de identidade racial o motor do posicionamento político é visto como limitador ou impeditivo para que o candidato possa alcançar um universo mais amplo de eleitores ou representar interesses coletivos. De outro, relativizar a política de identidade numa estratégia política tornaria o candidato um desenraizado, menos negro. No entanto, em qualquer desses enquadramentos, o candidato permanece sempre negro. A reiteração constante da negritude de Obama presta-se para negá-la.
Porém, o senador negro não cai facilmente na armadilha de prestar-se ao velho jogo, sempre proposto pelo poder branco, de usar um negro de sucesso para reiterar os estigmas que pesam contra os outros e barra-lhes as reivindicações. No livro A audácia da esperança, ele descreve o que denomina de “ritual de mesquinharias” que todo homem negro tem que suportar: de segurança que o seguiram em lojas de departamentos, casais brancos entregando a chave do carro a ele do lado de fora de restaurantes, confundindo-o com o manobrista. “(…) Eu sei como é quando as pessoas me dizem que não posso fazer algo por causa da minha cor e eu sei o gosto amargo do orgulho negro engolido.”
Como ele declarou num programa de TV: “Na calada da noite, em uma rua deserta de qualquer grande cidade, um motorista de táxi iria vê-lo com certa suspeita em vez de exclamar olha aí, um cara legal, meio branco, meio negro. Os que preferem ver em Obama “neutralidade racial” são os que nos propõem a dissolução da negritude num universalismo que suprime, autoritariamente, as nossas identidades.
Desvendando essa trama, Aimée Cesaire ensinou que “há duas maneiras de se perder: por segregação na particularidade ou por diluição na universalidade”. Há muitas formas de viver e politizar a negritude. Obama é uma delas.
“Obrigado, Iowa!”
Ainda que a distância ideológica entre um republicano e um democrata seja zero, com democrata na Casa Branca o mundo é sempre outro
Enquanto no Quênia a deterioração da situação política atinge a barbárie, com centenas de mulheres e crianças, quase todas da tribo do presidente Mwai Kibaki, os kikuyu, sendo estupradas nos confrontos pós-eleições presidenciais, evidenciando a atualidade cruel da prática de guerra de estuprar as mulheres dos inimigos tão-somente para humilhá-los, um descendente de queniano discursava dizendo: “Obrigado, Iowa!”
“Foi a esperança que me trouxe aqui, hoje. Com um pai que nasceu no Quênia, uma mãe que nasceu no Kansas e uma história que só poderia acontecer nos Estados Unidos da América, ouvi muitas vezes que este dia nunca chegaria.”
Era o senador por Illinois (capital: Springfield; a maior cidade é Chicago, que eu amo, com seu misterioso e belo lago Michigan – maior lago de água doce dos EUA e o quinto do mundo) Barack Obama, advogado e professor da Universidade de Chicago, vencedor das prévias de Iowa, que iniciam a corrida rumo à Casa Branca; hoje, único senador negro e, em um século e meio, o terceiro dos EUA. Com 46 anos, em primeiro mandato, é casado com a advogada Michelle e pai de duas meninas.
Barack Obama estudou ciência política na Universidade de Columbia (Nova York), em seguida foi para Chicago e por três anos atuou como “organizador de comunidades”. Em 1988, foi estudar direito em Harvard, onde foi o primeiro norte-americano de origem africana a presidir a “Harvard Law Review”. De volta a Chicago, era uma estrela nascente e cintilante da advocacia que rejeitou propostas de grandes escritórios para ser advogado de direitos civis, focando em vítimas de discriminação no emprego e na habitação. Na Universidade de Chicago, dizem que é uma sumidade em aborto, direitos de gays e ação afirmativa.
O especialista em política norte- americana Frank Unger, da Universidade Livre de Berlim, diz que as últimas eleições presidenciais dos EUA se tornaram “batalhas de personalidades”, pois “o sistema democrático dos norte-americanos é atávico, obsoleto e não reflete a democracia no sentido moderno. Objetivamente, o modo como a democracia dos EUA se desenvolveu não é mais adequado ao século XXI”. Reitero Thomas Bauer, do Centro de Política Aplicada da Universidade de Munique: “Os políticos precisam entender que tudo está realmente conectado a tudo. Não existe mais a opção isolacionista”, logo é crucial entender o “doméstico” da política norte-americana, pois ela repercute no cotidiano de cada ser humano. Até um espirro do presidente dos EUA reverbera em nossas vidas.
Continuo sem entender como pessoas de esquerda nos EUA em geral não votam. Consideram democratas e republicanos “farinhas do mesmo saco”. Têm alguma razão, porém ouso reafirmar que há diferenças, que são a tradução exata entre algo brochante e orgasmos múltiplos e arrebatadores, mesmo que incertos e esporádicos, pois ainda que a distância ideológica entre um republicano e um democrata seja zero, com democrata na Casa Branca o mundo é sempre outro. Nós, as mulheres, soubemos disso no dia da posse do primeiro mandato Bush, com o anúncio da Regra Global da Mordaça – restrição de fundos dos EUA para planejamento familiar e exigência de contrapartida de países e instituições de não uso até de fundos próprios para qualquer ação favorável ao abortoO Partido Democrata brilha com duas candidaturas alvissareiras: Barack Obama e Hillary Clinton. Todavia, muita água pesada vai rolar até novembro. Obama é negro, senhor de si (um abuso afro!), com senso de humor, perfomance de rock star e história de vida fiel aos valores liberais. É o único que arranha o establishment democrata e republicano e abala o status quo racista dos EUA profundo. Dele se espera, a qualquer momento, que diga: “I have a dream” (eu tenho um sonho), como Martin Luther King Pode virar realidade.